O colonialismo não acabou

Vivemos em uma sociedade estranha. Ao mesmo tempo em que buscamos uma “globalização” e encurtamos as distâncias entre países, criamos barreiras “invisíveis” entre diferentes povos ou classes sociais.

Dois exemplos deste distanciamento. Uma notícia de ontem e uma de hoje:

Favelas são tratadas como senzalas, mato e quarto de empregada – A cientista social Silvia Ramos comenta o recente “incidente” com homens do exército, que entregaram 3 rapazes de uma favela para traficantes de um grupo rival, que obviamente os assassinou. Aliás, Silvia Ramos é bastante feliz na sua comparação, até por colocar o “quarto de empregada” no mesmo grupo que a senzala. Se pararmos pra pensar, a própria existência do quarto de empregada em residências brasileiras já é uma herança dos tempos de senzala (já que, até onde eu sei, este cômodo não existe em residências de países mais desenvolvidos).

Parlamento Europeu aprova lei que facilita expulsão de imigrantes – Depois que se aproveitaram da mão-de-obra barata dos imigrantes, os Europeus começaram a ficar incomodados com aquela gente enfeiando as suas ruas (ainda que sejam úteis para as seleções de futebol nacionais, a França que o diga). O resultado está aí.

O fato é que desde os “tempos modernos”, pós-navegações e principalmente pós-revolução industrial, fomos acostumados a raciocinar de forma “colonialista”. Mas não se desesperem achando que vou dar aula de história aqui. Eu explico.

Com a modernidade, surgiram várias coisas legais, como o desenvolvimento da ciência e tecnologia, mas vieram também consequências ruins que regem o comportamento da sociedade até hoje. E uma das piores é o “modo moderno” de pensar e ver o mundo.

Nesse modo de pensar, o mundo é um lugar que necessita de organização. O poder parte de grupos pequenos e pré-estabelecidos, e aquele que não se adequa passa a ser considerado como alguém não-pertencente àquele grupo. A solução? Isolá-lo, mandá-lo para longe.

E esse tipo de raciocínio funciona em todos os âmbitos, desde as relações dentro de uma casa às relações entre países. Nós só reconhecemos como verdadeiros os conhecimentos oriundos de países da Europa ou dos Estados Unidos. Uma pesquisa inglesa pode provar algo que todo mundo aqui já sabia, mas a gente só dá crédito pra isso quando vê divulgado na pesquisa inglesa.

Afora isso, a própria divisão do mundo entre “países culturais” e “países para se divertir” reflete isso. Enquanto a Europa e os Estados Unidos são os lugares certos para se estudar ou para fazer passeios “culturais”, a África é um enorme zoológico a céu aberto. E a América do Sul é um enorme puteiro. Uma relação de poder onde o poder=conhecimento. E nem adianta lutar muito contra isso: são valores que já estão incutidos na mente de todos, inclindo africanos e sulamericanos.

Mas a principal consequência disto se dá dentro das cidades. Aliás, contribui com a própria arquitetura dessas cidades. O “indesejável” é expulso para aglomerações onde as pessoas que detém o poder dentro dessas cidades não têm que vê-los ou se preocupar com eles. Quanto mais modernas as cidades, mais se vê isso (e quando eu digo “moderno”, me refiro ao modo de pensar da modernidade, e não a “progresso” e “desenvolvimento” necessariamente). Não é a toa que Brasília é a cidade brasileira onde isso é mais forte. Cidade organizada no centro, pessoas pobres e “desnecessárias” ao redor. Esse é o modo de organização urbana da modernidade.

E aí nós temos as “casas grandes” e “senzalas” de hoje em dia, só muda o tamanho da coisa. E o poder público não combate isso, pelo contrário, piora o problema, com coisas como essa do exército.

Eu já tinha inclusive falado a respeito disso neste post. Pode parecer papo de rapper ou de esquerdista do PSTU, mas é fato. Vivemos em um mundo onde ao mesmo que se combate o racismo, são criadas cotas para negros e solicitadas pessoas de “boa aparência” nos anúncios de emprego. Em um mundo onde todos os povos parecem se aproximar com fenômenos como globalização e internet, mas se fecham cada vez mais as fronteiras para a imigração e o contato entre diferentes culturas. Ao mesmo tempo que supostamente buscamos nos “misturar”, evitamos essa mistura e criamos trocentas barreiras para impedí-la.

Mas definitivamente, é um mundo sem lugar para o “outro”.

E esse “outro” que vá procurar seu lugar nos porões da sociedade. Assim ficamos com a sensação de que o problema está resolvido, já que a priori ele não vai estar embaixo do nosso nariz.

Mas uma hora ele sempre acaba batendo na nossa porta.

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4 Respostas to “O colonialismo não acabou”

  1. kiki Says:

    o melhor é quando tem apartamento com entrada de serviço do lado da entrada social. a única diferença é que a porta dá direto pra cozinha…
    só pra gastar mais espaço!

    mas é complicado isso. sempre tem um querendo se dar bem em cima do outro… a favela é só um dos sintomas disso.

  2. Mari Says:

    Acabamos de ter uma discussão grande sobre isso. Enquanto todos pensarmos assim, a sociedade vai continuar igual. Old habits die hard.

  3. Orkut - Parte II « Quelque Chose Says:

    […] que “convivem” no orkut. Rafa abordou uma questão parecida com muita clareza nesse post. É bastante claro que o fenômeno do qual falei não é culpa do orkut e nem é exclusividade […]

  4. hgfdhgf Says:

    ainda se pode se falar de colonialismo

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