Homem x Máquina

Não, esse não é um post sobre Exterminador do Futuro, Star Wars ou Blade Runner. Esse post é sobre o homem lutando contra máquinas em outro aspecto, diferente destes blockbusters, muito mais presente nas nossas vidas.

Desde que eu comecei minha pós graduação, acabei lendo alguns textos filosóficos interessantes. Um deles é o “Filosofia da Caixa Preta“, de Vílem Flusser (um filósofo tcheco que viveu no Brasil a partir da década de 40).

Não vou adentrar em muitos detalhes desse ensaio (senão ninguém ia ler o post até o final – na verdade, acredito que poucas pessoas o lerão, mas tentem fazer isso, é interessante!). Resumindo então de forma bem rápida: Flusser utiliza a fotografia como um exemplo para abordar uma questão que o incomodava: até onde vai a liberadade das pessoas que precisam da tecnologia para criar (músicos, fotógrafos, designers)? Até onde esses equipamentos sofisticados permitem que as pessoas sejam, de fato, criativas?

Centrando seu raciocínio na Fotografia, primeiramente Flusser fala a respeito da difusão da fotografia na sociedade atual – e de como isso se torna um problema. As pessoas não têm uma tendência a olhar uma fotografia e enxergar aquilo como um objeto representativo, enxergando somente o que ele representa; ao ver uma foto do Bush, é normal exclamar “ih, olha lá o Bush”, esquecendo-se de que aquilo é na verdade um pedaço de papel que reagiu a químicos de forma a representar uma imagem, no caso, do Bush.

Isso leva ao fato de praticamente ninguém saber como “ler” uma foto, justamente por ficarem perdidas nesse processo. Todo mundo sabe bater fotos (é só mirar e apertar um botão), mas são “anafalbetas” na hora de interpretá-las. E isso obviamente não é bom: como você pode produzir um material que você não sabe como interpretrar? 

(E olha que no tempo dele nem haviam câmeras digitais).

Após isso, Flusser chega no cerne das suas preocupações e fala a respeito do uso que as pessoas fazem das câmeras. Na tentativa de “dominar” o equipamento, elas não notam que, na verdade, é o equipamento quem as domina.

Ao tentar entender o máximo possível do equipamento, se tornam prisioneiras do programa que este equipamento executa e dos seus limites. Se tornam, sem notar, seres programados por estes equipamentos, ao invés do contrário.

E na nossa sociedade mal-acostumada a ter tudo de forma clara, isso cria o fenômeno das “fotos óbvias“. Exemplo: o menino etíope com as costelas aparecendo = fome e miséria na África (exemplo que roubei do meu professor). As fotos em closes sangrentos pra mostrar pessoas assassinadas em uma chacina na favela (sendo que você podia deixar claro o que aconteceu de outra forma), etc.

 Amplie esse raciocínio pra outros campos da criação e temos outros exemplos: as pessoas que acham que sacam tudo de photoshop mas justamente por isso não conseguem sair do “feijão com arroz”, e não criam nada de diferente, não-usual. Ou mesmo aquela velha discussão no caso da música: “Feeling x Técnica”; “Hendrix x Malmsteen”; etc.

 

Nesse caso da música em específico, não posso deixar de lembrar do Roger Waters falando a respeito do Pink Floyd e da sua necessidade do uso de equipamentos sofisticados no “Live at Pompeii”. Indagado pelo diretor do documentário sobre o fato de usarem equipamentos demais e ficarem meio que “obscurecidos” pela tecnologia, ele respondeu: “Não é assim que funciona. Se você der um sintetizador a qualquer um, ele não vai se transformar na gente. Se você der uma Les Paul a um guitarrista qualquer, ele não vai se tornar o Eric Clapton“. E faz sentido. Porque tanto eles quanto o Eric Clapton buscavam explorar esses equipamentos de forma diferente, meio que “brincando” com eles e criando coisas fodas ao mesmo tempo, ao invés de simplesmente buscarem se tornar os mestres da técnica de cada equipamento e tal.

E com esse exemplo chegamos na conclusão que se tira disso, para Flusser. O ideal nesses casos seria “explorar”, “brincar” com o equipamento ao invés de tentar dominá-lo. Buscar tentar entendê-lo e explorar seus limites, tentar fugir dessa “programação” que eles possuem (o que não é possível, mas a simples tentativa de fazer isso já se configura como algo bom). 

E nesse ponto, voltando à fotografia, me lembro do Chema Madoz (ver o post da Mari de dias atrás) que faz fotos maravilhosas de forma extremamente simples, simplesmente ao olhar para determinados objetos de outra forma. Isso é claramente tentar fugir da programação da câmera. Ele utiliza o equipamento da mesma forma, fotometra, foca, aperta o botão, mas ao colocar um palito queimado ao lado de uma escala, ele muda completamente o significado daquele objeto para quem vê a foto. Bem diferente de uma foto que é simplesmente uma foto extremamente bem batida do mesmo palito em cima de uma mesa branca.

E deixando bem claro: não é que você tenha que ser um “burro” pra criar coisas fodas; na verdade, tem sim que entender do seu equipamento (todos os exemplos que eu dei aqui entendem bastante dele). Mas não pode achar que isso é o suficiente. Porque não é.

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6 Respostas to “Homem x Máquina”

  1. kiki Says:

    genial!
    é isso mesmo, no fim das contas o que vale é a qualidade saquela peça que fica atras do equipamento, acionando os botões…

  2. Mari Says:

    Eu concordo em partes. a parte da banalização da fotografia é assunto que com certeza eu abordarei em um post algum dia desses. Mas sobre a parte da técnica eu tenho minhas ressalvas. Mas acho que precisaria ler o texto nates de argumentar direito…

  3. kiki Says:

    opa, valeu pela visita no meu blog

    só pra por mais lenha na fogueira, pra voce e pra mari:

    a técnica em si não faz nada se “a pecinha” manipulando for um ocmpleto néscio.
    e um gênio consegue tirar leite de pedra, fazer arte com o que tiver à mão.

    porém, o desenvolvimento da tecnologia permite saltos inusitados nas diversas linguagens. abrindo caminho pros nescios e genios descobrirem novos rumos.

    um bom exemplo disso é o citado caso do eric clapton (alias, a nalogia foto x guitarra foi muito boa, dois exemplos que eu simpatizo): ele tira leite de pedra, toca muito com um equipamento relativamente simples, comparado com o que existe hoje. porém, a guitarra é um avanço tecnico enorme sobre o violão, que por sua vez é um avanço técnico enorme sobre o aláude e o charango, etc. e tal.

    enfim, escrevi muito. quase fiz um post, deveria ter postado no meu blog.

  4. kiki Says:

    droga, e ainda esqueci de escrever sobre a banalização da fotografia!

    rapidinho:
    com a foto digital, qualquer um fotografa, a um custo menor e praticamente sem limite de quantidade.
    há um boom de fotos, com muita porcaria. mas ajuda a alguns pequenos talentos desenvolverem a percepção da mágica de projetar o espaço no plano.

    já vi garotos de cinco anos fotografando melhor que a maioria dos adultos.

    enfim, acho que ja passei dos limites.

  5. Rafa Says:

    Kiki, obrigado pelos comments. =]

    Então, é sempre uma “faca de dois gumes”…o próprio Flusser fala rapidamente sobre isso nesse texto aí, sobre o que ele chama de “democratização da fotografia”. Pra ele, democratizar algo é sempre bom por um lado, aquele mais óbvio: mais gente pode ter acesso a algo que antes era restrito, nesse caso, algo com o qual se pode fazer ARTE. Por outro lado, no caso da fotografia, esse tipo de “arte” passa a fazer parte do nosso cotidiano de forma tão absurda que a maioria das pessoas não aprende a ‘ler’ corretamente uma foto, ainda que saiba manusear uma câmera (até falei disso no texto).

    No meu caso, se não fossem as câmeras digitais, provavelmente nunca teria me interessado por fotografia como me interesso hoje (ainda que não me considere um fotógrafo excelente, ainda mais nessa visão do Flusser, mas eu tento, hehe).

    Mas é justamente essa tecnologia que fica tão desenvolvida que começa a “engolir” o homem, enclausurar, podar a criatividade, justamente quando o homem acha que vai conseguir dominar essa tecnologia. Essas crianças que você falou, por exemplo: quem sabe justamente por não tentarem ‘dominar” tanto as técnicas e usarem mais o “feeling” natural? Aquilo que eu falei de “brincar” com o equipamento? Pode ser.

    Na minha opinião, a tecnologia não é uma “vilã” na história. Pelo contrário, ela é bem vinda e o potencial que ela cria quando facilita o acesso a determinada forma de arte é gigantesco. O problema na verdade é a imensa maioria das pessoas que não sabe como se adaptar a ela, buscando essa “adaptação” isso de formas que não são a ideal.

  6. Mari Says:

    Na minha opinião, a tecnologia e o conhecimento dela é algo bom e desejável, que devemos buscar sempre. No caso do Pink Floyd, por exemplo: se eles não soubessem usar o equipamento, não teriam feito Echoes.

    Concordo que isso não é o bastante. Gente que sabe muito sobre determinado equipamento pode ser incapaz de fazer arte verdadeira com ele (provavelmente é o meu caso com a câmera, e eu nem sei tanto assim).

    Mas o conhecimento do equipamento só “emburrece” alguém artisticamente se a pessoa deixar.

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