Ensaio sobre a cegueira – uma breve análise

By Rafael

 

Na semana passada, eu assisti a versão do Fernando Meirelles do livro do Saramago, Ensaio Sobre a Cegueira. Desde então, o filme me trouxe tantos questionamentos que me sinto compelido a escrever a respeito, tanto que cheguei a comentar que o faria lá no Vida Ordinária. Me entregarei portanto, agora, à dura missão de tentar analisar (ainda que brevemente) esse filme, que trás consigo milhares de questões complexas a respeito de nós mesmos e da nossa sociedade, gerando trocentas interpretações diferentes para a cegueira dos personagens.

Como já devo ter deixado claro no texto acima, não li o livro (ainda). Mas mesmo sem ter como comprovar, acredito que o Meirelles fez um bom trabalho ao transcrever a obra para esta outra mídia, e acredito, conseguiu trazer consigo os principais questionamentos do livro (bom, o Saramago concorda comigo).

Tentarei fazer algo no mesmo esquema que fiz com Wall-E: portanto, não se trata de uma crítica do filme, e sim de uma análise dos seus pontos mais relevantes (seguindo minha opinião e interpretação, obviamente). Mas vamos lá:

A Cegueira Branca

Logo no início do filme, vemos um personagem sendo “atacado”, de súbito, por uma estranha forma de cegueira. De repente, sua visão turva, mas, ao invés de simplesmente deixar de enxergar (e passar a enxergar tudo preto, como uma cegueira “comum” faria), tem sua visão mergulhada em um mar branco sem fim. (continue lendo)

Vamos começar a considerar. Nós vivemos em uma sociedade completamente dependente da visão, onde tudo é imagem. Somos cercados e bombardeados por imagens de todos os tipos, e não satisfeitos, queremos ver mais e mais, mesmo onde não é possível, o que lembra diretamente as cenas de outros filmes com “câmeras” que perseguem balas e as mostram perfurando o corpo de suas vitimas, ou mesmo as imagens de seriados como House M.D. – que eu adoro – mostrando o interior do corpo humano reagindo aos tratamentos impostos pela equipe do Dr. House.  Somos incapazes de imaginar determinadas coisas sem enxergá-las, e mesmo representações de elementos não-visuais são feitas de forma visual, como o som. Quem, por exemplo, nunca viu uma representação visual do funcionamento dos nossos ouvidos, com as ondas sonoras chegando representadas por aquelas formas visuais curvas: ”)))” ?

Então essa “cegueira branca” do Saramago representa, ao meu ver, este excesso de visão. Nós não estamos deixando de enxergar: estamos enxergando demais. Estamos vendo tanto, mas tanto, que deixamos de ver. Como em uma foto superexposta, onde o diafragma foi aberto e o tempo de exposição extendido (recurso que é sabiamente utilizado pelo Fernando Meirelles e pelo César Charlone para ambientar o filme).

Nesse ponto não consegui deixar de me lembrar de um dos autores que conheci através da pós-graduação que estou fazendo, o Norval Baitello Jr. e seu conceito de Iconofagia. Baitello é um pesquisador ligado à PUC-SP, e, bastante atento à nossa sociedade, criou este termo. Iconofagia, pela própria morfologia da palavra, se refere à devoração de imagens (ou pelas imagens). Nós devoramos imagens o tempo todo. Temos fome delas. Quando não temos essas imagens, tentamos recriá-las. O problema é que, ao devorar estas imagens, também somos devorados por elas. Um devora outro e ambos nunca se satisfazem. Baitello chega mesmo à dizer que essa coisa de devorar imagens ultrapassa o campo metafórico e chega ao real, em fast foods e lanchonetes do gênero. Nós vamos em McDonalds e lanchonetes do tipo para comer imagens. Imagens de sanduíches perfeitos, imagens de felicidade. E nunca nos satisfazemos. (e neste link tem uma entrevista com ele, à qual eu recomendo a leitura, fortemente) ¹

E nesse ponto nós notamos como a crítica tem sido imbecil ao analisar o filme, pois ouvi falar que tem crítico por aí reclamando da cegueira branca pelo fato dela ser “cientificamente improvável”. Come on, buddy, leia nas entrelinhas.

Identidade

No filme (e no livro) ninguém tem um nome. Repito, não li o livro, mas até onde eu sei, o Saramago se refere aos personagens somente como “homem da venda preta”, “mulher de óculos escuros”, etc, sem dar mais detalhes de suas aparências. Neste ponto eu enxergo duas coisas:

1- Uma certa estratégia do Saramago que de certa forma “cega” igualmente o leitor do livro, impedindo-o de saber detalhes fisicos destas pessoas (além dos mencionados) e forçando-o, como aos personagens do livro, a tentar imaginar estas pessoas de acordo com a forma que se comportam. Eu não ficaria impressionado se a maior parte das pessoas imaginasse os “vilões” da história com a aparência mais feia do que os protagonistas, sendo que isto não é necessariamente verdade (e neste ponto, temos um diálogo no filme onde um dos personagens chega à conclusão de que o personagem de Gael Gárcia Bernal é negro, simplesmente pela forma que ele se comporta, deixando transparecer a visão – sem trocadilhos – preconceituosa que ele tem do ser humano. E o mais irônico é que ele faz este comentário a um de seus colegas de querentena no qual confia: um negro.)

2- Nossa identidade está claramente associada à nossa aparência; mais diretamente ao nosso rosto. Qual a forma mais comum (e incompleta) de resumir a identidade de alguém? Uma foto 3×4. Sempre que alguém morre em um acidente, nós temos aquela clássica imagen da foto que consta na carteira de identidade da pessoa, com a sua foto, para que possamos vislumbrar por um último momento o rosto desta pessoa. Por outro lado, identificamos pessoas que não conhecemos bem justamente pela atividade que executam ou por detalhes como “óculos escuros”, “careca”, “camisa xadrez”, etc, e assim elas passam a serem “resumidas”, sem necessidade de identificação através de um nome. Neste caso, eu enxergo portanto - olha o trocadilho – uma certa “diluição” da identidade de cada um, decorrente da ausência da visão generalizada. E uma crítica a essa forma de “enxergar-sem-enxergar” as pessoas que costumamos utilizar no dia-a-dia. De que adianta enxergar se tudo que nossos olhos vêem é “a mocinha da recepção” e “a faxineira”, sem se preocupar em conhecê-las direito, saber seus nomes?

Neste ponto também surge outra questão. Sabe aquela coisa já meio batida da “beleza interior”? Pois é, de certa forma eu vejo isso na história do filme/livro também. Algumas pessoas, ao ficarem cegas, se aproveitam da situação para tirar vantagens, de forma extremamente suja e cruel. Outras acabam se unindo. Mas podemos dizer que a maior parte da sociedade volta para o estado de barbárie, praticamente pré-histórico. Ao perdemos nosso sentido mais importante, no qual a sociedade moderna está completamente baseada, voltamos à idade da pedra, uma sociedade sem leis e na qual quem conseguir algum tipo de vantagem vence. E é o que acontece no filme.

A Diferença

Um aspecto importante da nossa sociedade e que é bastante estudado atualmente é a forma de interação com o “outro”, com o diferente. Neste filme/livro, temos uma situação que faz com que pessoas completamente diferentes sejam amontoadas em um velho hospital (é o que parece).

E aí entra o meu lado lado crítico: isso me incomodou de certa forma, pela dificuldade que tive em crer que isso realmente aconteceria. Pelo menos no Brasil – o filme foi filmado aqui, mas em nenhum momento é especificada a cidade onde o filme se passa, podendo ser qualquer cidade grande do mundo – eu duvido muito que juntassem ricos almofadinhas com “pobres sujos” no mesmo lugar, ainda que eles não pudessem enxergar o que estava acontecendo nem quem estava ao seu lado. Depois de alguns dias pensando a respeito, entendi que a crítica residia justamente aí: se não enxergamos quem está do nosso lado, não vamos criar mil impressões sobre essa pessoa antes de conversar com ela; e só a partir daí começaremos a criar identidades para estas pessoas.

De qualquer forma, ainda acho difícil que as autoridades realmente agissem desta forma, pelo simples fato da nossa sociedade estar orientada de uma forma muito clara: ricos de um lado, pobres do outro. Mas ignorando a verossimilhança disso, e aproveitando como uma hipotética experiência sociológica (um experiência de verdade, ao contrário de Big Brothers e coisas do tipo), ao tirar o “filtro” da visão, vemos pessoas diferente se associando de formas inesperadas (como o racista que fica amigo do negro), ou mesmo o rapaz que conversa tranquilamente com a moça nua ao seu lado.

Por outro lado, a diferença traz obviamente problemas, como traz em qualquer lugar. Nós enfrentamos a diferença o tempo todo, em diferentes níveis: desde o vizinho do condomínio que gosta de música sertaneja até o menino que enfia a cara no vidro do seu carro pra pedir esmola no sinal. E no filme, ao juntar pessoas diferentes, obviamente são formados diferentes grupos, que, ao invés de cooperar,  começam a entrar em conflito e tudo fica complicado. Mesmo cegas as pessoas continuam se separando em grupos e entrando em conflito.

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Enfim, se eu fosse fazer uma análise de verdade, teria que comentar as trocentas cenas bem arquitetadas pelo Meirelles (algumas delas muito bonitas; outras, pelo contrário, chocantes, como devem ser), os excelentes recursos visuais que “embaçam” e estouram a cena quando os personagens estão ficando cegos, ou mesmo comentários a respeito do excelente final do filme e da personagem da Juliane Moore, que carrega o fardo de ser a única pessoa que não perde a visão neste mundo barbarizado. E isso renderia assunto pra uns 9 posts enormes. Mas acredito aqui ter abordado as principais questões – no meu ponto de vista - desta complexa narrativa neste post (ou não, são tantas que devo ter esquecido de algo importante).

Ensaio Sobre a Cegueira (chamá-lo de Blindness não faria sentido algum, considerando que a obra original é portuguesa) não é um filme fácil. Ao contrário, é incômodo e demanda interpretações do espectador – tanto que já vi várias pessoas interpretando a narrativa e as metáforas do Saramago das mais diferentes formas, e considero todas válidas. Não a toa está sendo detonado pela crítica mundo afora. Crítica esta que parece mais cega que os personagens da história, se recusando a enxergar o que existe de importante por trás desta sensacional história.

Só sei que depois desse filme eu resolvi que lerei tudo do Saramago.

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¹ Este post tem até “referência bibliográfica”. Estamos chiques.

² Devido ao trabalho de escrever este post e à extrema preguiça, não hospedei nenhuma dessas imagens. Saí pegando “emprestado” de outros sites e blogs. Caso você seja um deles e não queira a imagem aí, é só pedir que eu tiro.

³ Já comentei que vocês devem assitir “Ensaio Sobre a Cegueira”?

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11 Respostas para “Ensaio sobre a cegueira – uma breve análise”

  1. Mariana Disse:

    Olá.
    Realmente, a sua analise é incrivel.
    Já vi o filme e estou terminando o livro para a escola.
    Com certeza, há diversas maneiras de interpretar a história, mas, a sua explicaçao a respeito da cegueira branca em si, é incomparável.
    Parabéns!
    Me ajudou muito, e agora, além de ter a minha opiniao sobre a filosofia adotada na historia por Saramago, começo a utilizar o seu ver para refletir, e chegar a conclusoes cada vez mais profundas.
    Abraços, Mariana.

  2. kiki Disse:

    bom, dei aquela lida diagonal, por que como voces mesmo sabem, voces escrevem demais. e eu tambem. entao vou comentar “só” duas coisas:

    - li o livro (momento sou cult) e vi o filme. e tambem achei muito bom. a ideia do “enxergando demais” acho que tá no livro tambem, e achei boa a associação disso com a cegueira branca, não tinha pensado nisso.

    - tambem achei genial os desfoques e estouros de luz pra simular a brancura. é a tradução intersemiótica da cegueira do livro pro filme (precisa de nota tambem?). inclusive por isso que o meireles escolheu a moça principal como uma loira bem branca, pra poder dar varias estouradas na iluminação (por que juro que no livro era morena, apesar dele não dizer isso). alias, quando voce diz que ele arquitetou as cenas, voce sabe que ele é arquiteto, ne? meu colega inclusive.

    até!

  3. Mariana Disse:

    Ok, agora posso comentar aqui!

    Vi o filme e li o livro depois. Preferia que tivesse sido ao contrário, mas isso não tem mais jeito, né. Tendo feito as coisas nessa ordem, posso atestar com segurança que Meirelles fez um trabalho maravilhoso na adaptação. Vendo o filme, eu pude não somente ver as ações descritas no livro, como refletir e concluir coisas que são ditas ou insinuadas pelo Saramago.

    Sério, nunca pensei ser possível adaptar um livro desses e conseguir esse feito. Diante disso, os pequenos detalhes que me incomodaram no filme ficam completamente irrelevantes. E eu entendo bem aquele vídeo mostrando o Saramago assistindo o filme pela primeira vez.

    O que eu entendo menos é a aceitação que o filme recebeu. Se a obra do Saramago tivesse essa mesma rejeição, tudo faria sentido. Mas sendo ele quem é, não compreendo como não acharam o filme uma obra prima.

  4. Marília Assis Disse:

    Bom dia!

    Estou fazendo um trabalho na faculdade sobre este filme… foi muito bom a sua análise, me deu ótimas idéias para elaborar o trabalho.

    Parabéns pelo Post [e pelo blog tb!]

  5. eva da rosa e silva Disse:

    a sua analise está maravilhosa, eu sou formada em letras, mas nunca é demais mais oconhecimento
    adorei
    abraços
    Eva

  6. Alex Medeiros Disse:

    Assisti esse filme hoje na univerdade!!!

    e tenho q fazer uma resenha sobre ele, muitos dos meus pensamentos estão aki e de uma maneira bem clara. Parabéns, uma otima análize desse filme/livro que me surpreendeu do ínicio ao fim.

    Devoramos a imagem, mais nunca pensei q fossemos devorados por elas.
    (adorei isso)

    o filme tem varios conflitos que o movimenta, mais dois me chamaram muito à atencão:

    A personagem q passa pelo fardo de ser a única com visão e é a única que pode fazer alguma coisa, e passa boa parte do filme sendo submissa a situação. talvez por sua conduta moralista e benfeitora, mais quando sua moral/dignidade é ferida ela resolve agir!!! (quebrando assim com outras regras da situação).

    E o melhor conflito foi a cegueira, desde do seculo XX q o corpo é o principal canal para manifestacões artísticas. tava tudo em ordem aí vem o caos (cegueira) que exige uma organização melhorada (não igual a ordem anterior o caos exige uma melhoria) para voltar a ter ordem. Quando o primeiro personagem q perdeu a visão recobrou ele não enxergava como antes e nunca mais ira enxergar como um dia enxergou! a visão dele agora melhorada não no sentido biológico e sim no sentido sentimental. (tudo agora é mais belo, tem mais cores, todos são mais lindos).

    espero ter sido entendido.

    abracos!

  7. Enedina Cristine da Silva Disse:

    Estava louca para assistir ao filme desde o ano passado e só agora consegui. Sua análise foi um tanto satisfatória. Mas ainda fico intrigada a respeito da escolha da pessoa para ser “o guia”. Por que uma mulher? Por que a esposa do oftamologista? Será porque nós mulheres somos mais racionais e sentimentais (ao mesmo tempo) do que os homens? Temos mais controle em uma situação de traição, por exemplo? Que cegueira é essa que ainda permitimos que nos acometa mesmo tendo consciência que enxergamos? Seria uma acomodação ou medo?

    Gostaria de discutir mais com você a respeito. Aguardo uma resposta ou respostas.
    Esteja com Deus.

  8. Elza Mendes Disse:

    Muito boa a sua análise na questão da visão de sociedade e, da modernidade que escraviza em excessos de imagens.
    Mas, o que me chamou muito atenção no filme, foi a questão da sobrevivência, da quebra de valores quando a vida está sendo ameaçada.
    Imaginei o que foi para aquelas mulheres se submeterem, sexualemente, àqueles homens. Acredito que tenha sido o mais difícil no período da quarentena. O resgate de suas identidades na hora do banho e a felicidade que sentiram após sobreviverem, impressionou .
    O descaso das autoridades foi algo triste embora, nada surpreendente.
    Enfim, o filme é uma excelente crítica, tanto na questão social, política e também individual. Pois, atribuimos valores excessivos no nada e, onde o que realmente deveríamos observar, ignoramos.
    A impressão que tenho é que ainda há muito que o se comentar, tão complexo e profundo é o filme.

    Parabéns!

  9. Cleura denise Löfgren Disse:

    Nossa! Tão rica sua análise! Gostaria de ser assim, perceber todos os detalhes, analisar sob vários aspectos. Assisti a convite de minha filha de 16 anos que é apaixonada por cinema. Achei o filme diferente de tudo a que já assisti antes. Realmente ele não é fácil, mas ao mesmo tempo nos proporciona a possibilidade de repensarmos nossas atitudes frente a várias situações. Pensei nele como uma das atividades do projeto que tenho que desenvolver no estágio (Letras) , no E.Médio, numa turma de 1ª série, mas ainda estou pensando porque tenho que ter o tema bem sustentado, os objetivos bem definidos e primeiro conhecer a turma , lógico! Obrigada pela contribuição!

  10. Juarez antonio Girollete Disse:

    Extraordinário filme que permite analises para todos os lados e ângulos. .Excelente para a formação de Profissionais Assistentes Sociais, mostrando o quanto ainda está por ser feito para as pessoas desprovidas, encaminhando e orientado-os como bem fez Juliane Moore. Tremi durante o filme todo em ver que o bandido e ladrão é quem tinha maior controle no espaço aglutinando sobre sí maior número de pessoas, roubando e controlando a alimentação em troca de sexo! Isso acontece na real! O planeta está cego há muito quando percebemos o caos na saúde, na educação,na habitação e na distribuição de rendas.A corrupção reina absoluto. Obrigado pela contribuição.

  11. Ariel Disse:

    Uau, você salvou minha vida ! kkkk’
    Estava desesperadamente procurando uma análise sobre o livro porque a faculdade está acabando com minha vida, de repente você cai do céu. Muito obrigada, sei que não foi pra mim a análise mas ajudou bastante. :D

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