David Lynch, o pescador

By Rafael

Ontem eu fui com a Mari assistir ao debate com o David Lynch lá na reitoria da UFMG. Como obviamente estava lotado, chegamos quase duas horas antes do debate em si, mas ainda assim não conseguimos entrar no auditório, e tivemos que nos contentar em ver o Sr. Lynch do lado de fora, em um telão. Mas foi interessante ainda assim.

Quem já viu os filmes de David Lynch sabe que ele não é um cineasta “comum”. A maioria dos seus filmes conta com elementos bizarros que simplesmente surgem na tela, sem separação entre o que é sonho e realidade, muitas vezes flertando com o surrealismo. Farei aqui um breve resumo do que foi falado.

Fila para ver o David Lynch. “Imagina se fosse o Spielberg”

Lynch veio ao Brasil, na verdade, para divulgar o seu livro “Águas Profundas – Criatividade e Meditação”, e aparentemente está mais interessado em falar sobre o assunto do livro do que sobre qualquer outra coisa. Sendo assim, digamos que ele deu respostas muito mais elaboradas para a entrevista com o Fanaticc do Jovem Nerd do que para as pessoas que estavam no debate querendo saber detalhezinhos da carreira dele. Mas falando desse jeito, parece que ele estava de má vontade: não é verdade. David Lynch acabou se revelando uma criatura bastante simpática, aberta a brincadeirinhas e sempre risonho ao responder as perguntas (coisa que eu não esperava.)

- Processo criativo

Mas vamos lá. O debate era sobre “consciência e processo criativo”. Eu lembro que saí do debate comentando com a Mari que se fosse depender das “dicas” dele pra criar, eu tava fudido. Porque para Lynch, o processo criativo se constitui basicamente em “pescar” idéias. Sim, ele elaborou esta metáfora e insistiu nela sempre que as pessoas perguntavam “de onde veio a idéia para tal filme?”. Segundo Lynch, as idéias estão por aí, no seu subconsciente, e você, como um pescador precisa de paciência e e uma boa vara de pescar. A vara de pescar seria a consciência. Segundo Lynch, quando você consegue finalmente “pescar” uma boa idéia, esta pode dar origem a várias outras. Ele diz que seus filmes normalmente começam assim: ele parte de uma idéia isolada, de uma cena específica. E vai “pescando” novas idéias até completar a história do filme. E foi basicamente a idéia que ele tentou passar no resto da palestra.

É tudo muito lindo, mas dificilmente funciona para quem tem prazo pra criar, como nós, pobres publicitários e designers. Haja meditação. =P

De qualquer forma, é uma boa dica: você não sabe quando uma idéia vai surgir. Esteja pronto pra ela. Eu já tive idéias interessantes que deixei escapar por não anotá-las rapidamente. Precisamos confiar nas nossas idéias e estar sempre preparados para quando elas surgirem: um bloquinho de papel é sempre útil.

David Lynch falando e meditando

- Interpretação dos filmes

Quem já conhece David Lynch sabe que ele é adepto da teoria de que cada um tem a liberdade para interpretar seus filmes da forma que bem entender. Mas as pessoas aparentemente não se conformam com isso, e pedem explicações o tempo inteiro. Ele se recusou a responder todas as vezes que perguntaram coisas do tipo (que sempre se converteram em momentos hilários, como a do cara que perguntou se ele fumava maconha ou tomava chá de cogumelo). E disse: “eu tenho minhas próprias explicações para tudo que está nos meus filmes. Mas as pessoas podem ter outra interpretação deles, que é tão válida quanto a minha. Por que impor a minha interpretação, então? Todas as formas de enxergar o filme são válidas.” Mas é engraçado como as pessoas não se conformam com isso, e continuam exigindo uma explicação “absoluta” para tudo. Mais um daqueles sintomas do projeto da modenidade.

- Película X Digital

Ao ser questionado pela debatedora sobre o que ele havia dito em seu livro, que o cinema estaria “acabando para a tela grande”, ele disse que ela tinha entendido errado: na verdade, o cinema estaria, em breve, dando adeus à película. E completou: “se eu tiver que dirigir mais um filme usando aqueles trambolhos, eu prefiro me matar”. E completou dizendo que a “tela grande” nunca deve sumir.

Pessoas comportadas (?) assistindo ao tio David

- Paz

David Lynch criticou o governo de Bush (indiretamente: disse que “nos últimos 8 anos” os EUA se tornaram uma nação da qual ele não quer mais fazer parte), mas que ele prevê bons tempos pela frente. E acredita que a paz vai chegar em breve, e não a paz com ausência de guerras, mas a paz com ausência de negatividade no mundo. Viagens à parte, quando comentei sobre isso com meus colegas da pós, eles lembraram que os filmes dele são cheios de cenas violentas e sexuais, o que é engraçado para um cara que espera a “ausência de negatividade” surgindo em breve.

Afora isso, entre outras coisas, Lynch apertou mãos de fanzocas chorosas, ouviu cantadas idiotas, elogios ao seu penteado, reclamou de ter que pôr finais em filmes (nesse caso, reclamando do fato de ter que ter terminado Twin Peaks provavelmente antes do que ele gostaria), disse não entender nada de técnica cinematográfica (ha-ha!) e não saber qual a relação de seus filmes com o surrealismo. Se não serviu para aprender muita coisa, foi bom só por escutar o cara falando, e pra dar umas risadas. Afinal,

De resto, vocês podem ler a entrevista do Jovem Nerd que eu coloquei ali em cima. Ele fala basicamente das coisas que eu citei aqui, e destrincha melhor o assunto que ele quer falar de verdade: meditação.

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2 Respostas para “David Lynch, o pescador”

  1. Mariana Disse:

    Muito bem resumido aqui. Também fiquei surpresa com a simpatia do Lynch. Tem a desvantagem da platéia fazer perguntas bestas, mas nesse caso, nem a debatedora conseguiu falar algo interessante. O que acabou sendo bom, porque ele simplificou toda a complicação que ela criou em torno da obra dele. Adorei isso.

    Foi uma experiência bem legal!

  2. Fabricio Dolci Disse:

    Poxa, aqui em São Paulo não tivemos essa sorte de acompanhar pelo telão…bom, pelo menos consegui uns livros autografados e estou “dando” um deles num concurso….se quiser participar…

    http://www.david-lynch.fabriciodolci.com.br

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