A minha idéia quando fiz este post não era fazer uma continuação pra ele, mas ela tornou-se necessária nos últimos dias.
Assim como naquele post, esse será pessimista e irritado. Que me desculpem os otimistas, mas eu acho que é difícil manter uma visão otimista do mundo depois de ver certas coisas.
Ontem eu encontrei essa comunidade sobre a qual a Mari falou no post anterior. Sobre ela, poderia falar dezenas de coisas, como o domínio das marcas e grifes no inconsciente coletivo, que fazem com que pessoas de condições sociais inferiores usem produtos que fingem ser de marca simplesmente para ganhar status, para ficar mais parecido parecido possível com um playboy, criaturas que eles mesmos abominam.
Aliás, como a Mari mesmo comentou comigo ontem, o carinha lá da comunidade tenta defender a Zona Norte de Belo Horizonte dizendo que aqui as pessoas também usam produtos de marca. Patético.
Mas não é sobre isso que vou falar, e sim sobre os preconceitos/racismos que estão impregnados na sociedade e que aparecem mais claramente em comunidades como essas do orkut.
O fato é que o orkut se tornou um antro potencializador de todas as podreiras humanas. De pedófilos a neo-nazis, todos se aproveitam da possibilidade de aparecer “sem rosto” nestas comunidades para poder divulgar seus pensamentos nojentos. Pensamentos que os acompanham o tempo inteiro, mas que eles não podem soltar em qualquer lugar. Só em rodas de amigos mais conhecidos ou em lugares como o orkut.
Mas o que me deixa mais revoltado é a forma como algumas dessas comunidades tentam “embasar” seus ideiais, como se eles se tornassem socialmente aceitos. De certa forma, se torna “cool” falar mal de negros, nordestinos, gays, etc.
Exemplo. Comunidade “Eu chamo os outros de baiano“. Leiam a descrição. Começam dizendo que gente mal-vestida, provavelmente de preferência negra e pobre, são chamadas de “baiano” em SP, e que isso é engraçado. E terminam a descriçao da comunidade dizendo que ela NÃO É PRECONCEITUOSA. Essa aí ainda está naquele esquema “fechado” (uma das piores coisas que o orkut fez), mas tem algumas que eram abertas e o pessoal postava sem problemas.
Mas esse foi só um exemplo de como a coisa funciona no orkut. Minha intenção aqui nem é reclamar de maus tratos a nordestinos em geral, e sim da forma como a nossa classe média/alta do Brasil é “educada”.
São essas mesmas pessoas que acham bonito falar mal de negros/nordestinos que acham que o BOPE devia sair matando geral nas favelas. São as mesmas pessoas que ridicularizam os favelados por usarem roupas falsificadas. O orkut (e a internet em geral) apenas serve como um potencilaizador, um lugar pra essas pessoas se mostrarem “sem medo”, mas o fato é que elas pensam isso o tempo inteiro. E o pior é que já encontrei negros falando mal de nordestinos, e nordestinos falando mal de negros. Gente que é vítima de preconceito se achando melhor que os outros.
Aí dizem que o nosso país é unido, miscigenado, todo mundo é brasileiro e se ama. Mas acho que nem em época de copa do mundo isso acontece.
A verdade é que nós somos piores. Nós somos o país do preconceito velado. Do “exige-se boa aparência” do anúncio de jornal. Das “piadinhas de preto” em rodinhas fechadas de amigos.
Às vezes, temos a impressão de que lugares como os Estados Unidos ou a França são lugares onde existe uma separação racial mais forte do que aqui. Não é verdade. Eu diria que aqui é pior. Nesses países, pelo menos, os negros têm mais noção da sua raça, e notam mais facilmente quando estão sendo passados pra trás. E protestam. Aqui é o país onde o negro responde que é “café-com-leite” no Censo, porque é mais socialmente aceito. E nem se dá conta disso.
Mas o que me entristece mesmo é ver pessoas jovens e supostamente bem educadas disseminando esse tipo de comportamento. Ou vocês acham que os usuários do orkut tem todos mais de 40 anos? Essas pessoas são jovens, “educados” pra pensar assim, seja pelos próprios pais, sejam pelos amigos, enfim, pela sociedade à qual pertencem. As crianças, por mais “cruéis” que sejam na sua sinceridade, não costumam ver barreiras entre pessoas de raças ou classes sociais diferentes. A não ser que sejam educadas pra isso.
E é assim que os jovens da nossa classe média/alta são educados desde cedo: pra enxergar o diferente dele como “resto”, como algo digno de ser descartado, ridicularizado. Algo que não devia pertencer ao mesmo mundo que ele. Algo que merece apanhar, tacar fogo, etc.
Aí temos um fenômeno que se perpetua. Do mesmo jeito que o ódio entre isralenses e palestinos se perpetua de geração pra geração. Os filhos são ensinados desde cedo a detestar os inimigos. E vão ensinar seus filhos da mesma forma. Quando isso vai terminar? Provavelmente nunca.
Ainda que nós vivamos em um mundo onde esse tipo de comportamento é menos aceito que em gerações anteriores, eu não vejo as pessoas mudarem a forma de pensar. E não vejo elas mudando no futuro.
Lembrando que muitas vezes, esses jovens se comportam de forma escrota simplesmente porque é cool ser politicamente incorreto. Se tornam mais bem vistos entre os amigos e tal. Nem tem a ver necessariamente com a educação paterna. Mas eu tenho uma tendência a acreditar que certo nível de escrotidão só é atingido se permitido (ou estimulado) pelos pais. Eu nunca espanquei prostitutas ou empregadas domésticas na rua, por exemplo.
Ah, falando em mim. A partir do momento em que eu analiso uma sociedade à qual pertenço, eu não posso me excluir desta análise. Eu também sou preconceituoso em determinadas situações. Também julgo pessoas pela roupa que usam às vezes. Não que meus pais tenham me educado assim, mas a sociedade “educa”. Eu também sou “vítima” desse tipo de pensamento, sim senhor.
Só sei que isso tudo me entristece muito, até porque não vejo uma forma disso terminar. Temo que os anos passem e esse tipo de comportamento nunca suma de fato. Quando muito, se torne cada vez mais velado. Afinal de contas, tem gente que acha Hitler genial até hoje.
Tags: Orkut, Preconceito, Racismo
28 Maio, 2008 às 2:34 pm |
O que me deixa mais pasma nos jovens da minha classe social e das classes mais altas é que eles pensam que dinheiro compra educação. E eu não me refiro aqui a educação do tipo matemática, portugês, geografia(essa dá para comprar, mas mesmo comprando não é garantia que vai ser aprendida). Educação não é sinônimo de familía de classe alta, de dinheiro, de roupa de marca.
28 Maio, 2008 às 7:01 pm |
[...] Quelque Chose « Humanidade, wtf? (2) – Preconceitos e racismo [...]
18 Junho, 2008 às 2:55 pm |
[...] já tinha inclusive falado a respeito disso neste post. Pode parecer papo de rapper ou de esquerdista do PSTU, mas é fato. Vivemos em um mundo onde ao [...]