E a UFMG se juntou a essa vergonha…

Esse post é um protesto. A UFMG anunciou que para o vestibular de 2009 vai estar valendo um bônus de 10% da nota para alunos de escola pública e 15% para alunos negros de escola pública. Eu acho, como já disse no título do post, uma vergonha todos os tipos de sistemas de cota que diferenciam vestibulandos. Esse tipo de solução é remendar uma represa estourada com um esparadrapo.

A desigualdade social e cultural é uma verdade nesse país. Mas esse modo de tentar solucionar o problema é patético e pelo que tenho visto nas notícias, anticonstitucional. Vou explicar porque desaprovo tanto. Para começar, tem o nível de qualidade da universidade. Eu tenho orgulho da minha e do meu curso, especialmente. Se entram alunos menos preparados, a tendência é cair o nível de excelência. Sem contar que as turmas especiais para repetentes das matérias do ciclo básico (lá no ICEx) já estão lotadas. Alunos menos preparados do que os que já estão lá não terão condições de acompanhar as turmas de seus cursos.

E todo ano é a mesma coisa, alguém resolve entrar com um processo a favor de algum aluno não cotista que não conseguiu a vaga pela existência das cotas e fica aquela lenga-lenga na justiça. Ruim para os alunos, ruim para a Universidade. Já ouvi também casos de alunos que entraram por causa das cotas serem descriminados pelo resto que entrou “normalmente”. E eu confesso que entendo em parte o sentimento desses alunos “normais”.

A medida adota pela UFMG exige que o aluno tenha cursado da quinta série do ensino fundamental até o terceiro ano na rede pública. Isso pelo menos dificulta burlar o esquema, mas não impede. Sei que tem pais que pensam em tirar seus filhos da escola particular, colocá-los na rede pública e numa aula de reforço para complementar. Isso só atolaria a escola pública, diminuíndo a qualidade de ensino ainda mais e prejudicando quem não tem dinheiro para pagar “um complemento por fora”. Mas isso é mais difícil nesse esquema da UFMG. Mas quem cursou escola pública e fez cursinho particular, como fica? Tem o mesmo direito de quem não teve nada por fora?

Fora que o sistema de decidir quem é negro é bizonho, né? Eu ainda lembro daquele caso dos gêmeos idênticos que um foi considerado negro e o outro não. E isso, na minha opinião, é uma forma de preconceito. Sim, preconceito mesmo.

E essas medidas deixam a impressão que algo está sendo feito para tratar o abismo social e financeiro brasileiro. Só enganação. O que precisa é investimento pesado no sistema público. Na base. Todo mundo devia ter direito a ensino público de qualidade, sempre. Se investisse na base, não ia precisar fazer essa palhaçada na hora do vestibular.

Ensino médio é tão fundamental quanto o chamado ensino fundamental. Esse tipo de formação devia ser acessível a toda população, de graça e com qualidade. De graça nada, né, pagamos imposto afinal de contas. Mas nível superior é para quem gosta. Muita gente poderia ter uma profissão e um salário bom, seguindo sua vocação, se tivesse chance de se profissionalizar sem fazer faculdade. Investir em cursos técninos e profissionalizantes também é necessário. Além disso, a proliferação de faculdades de fundo de quintal, cursos de 2 anos e coisas do tipo contribui para diminuir o valor de um curso superior, hoje ter diploma e nada é quase a mesma coisa.

Eu sou defensora ferrenha da educação como instrumento transformador. Só com educação de qualidade podemos ser realmente cidadãos. Esse tipo de coisa me deixa triste e p&%# da vida. Investimentos reais, que assegurem qualidade desde a albetização até a profissionalização, seja ela universitaria ou não é o que muda a triste realidade do sistema de ensino brasileiro. Só vamos sair da condição na qual nos encontramos quando nosso povo tiver acesso a cultura e informação, quando investirmos em pesquisa e desenvolvimento para então deixar a condição de colônia, que nos persegue até hoje, e nos aproximarmos mais de sermos uma nação livre.

Etiquetas: , , ,

2 Respostas para “E a UFMG se juntou a essa vergonha…”

  1. Rafa Disse:

    É aquela história: é mais fácil dar uma canetada no papel e criar as cotas do que gastar milhões e ter que esperar vários anos pra se reformar o ensino público.

    As cotas são uma muleta, não vão resolver o problema, só tentar contorná-lo do jeito mais fácil, coisa que nossos governantes são especialistas em fazer. O resultado é isso aí que você falou: piora da educação universitária, preconceito, etc e tal.

  2. kiki Disse:

    essas cotas são uma palhaçada.

    sobre os negros eu nunca ouvi um argumento decente. só me falam de uma tal divida social, etc. e tal.

    sobre escola pública eu ouvi um razoavel, de um professor do direito da usp: ele diz que a desistencia é muito grande, por desinteresse, e que provavelmente alguem de escola pública que entrou suadamente daria mais valor à vaga conquistada.

    mas investir na escola mesmo ninguem quer.

Deixe um comentário