“Qu’est-ce qu’un auteur”?
De todas as teorias que tenho estudado na minha pós, parte das que eu acho mais interessantes se referem às teorias de autor.
Repetindo a pergunta em francês (título do post) feita por Michel Focault (aquele mesmo que os playboys estudam em Tropa de Elite): “o que é um autor”? A priori, todos teremos a tendência de responder aquelas coisas de sempre: é o “pai” da obra, aquele que gera a obra, etc e tal.
Pois bem, desde meados do século XX que a coisa não é vista exatamente dessa forma (ainda que nos colégios a noção de autor como “dono da obra” ainda seja ensinada). Segundo franceses maneiros - Barthes, Focault, etc - o autor morreu. Assim que sua obra fica pronta, ele deixa de existir. Entenda-se como obra não somente os textos literários, mas também as músicas, filmes, etc.
Explico: a partir do momento que se concebe uma obra, e que esta passa a ser interpretada pelo leitor, o autor deixa de existir como “autoridade” dona do sentido da obra. Sua existência se resume ao ”modo de ser do discurso” (o “estilão” de cada um: aquela coisa dos “textos kafkanianos”, “textos shakesperianos”), e não como “dono da obra“. O autor, para esses filósofos, não seria nada mais do que o estilo de cada um. De forma que é possível identificar a autoria de várias obras de arte simplesmente reconhecendo o estilo do autor que as elaborou.
Isso nos leva às irritantes perguntas de vestibular: “o que o autor quis dizer?” Na verdade, não interessa o que o autor quis dizer, e sim o que o leitor captou daquilo. “A nascimento do leitor deve se pagar com a morte do autor” (Barthes).
Mas, obviamente, existem limites para essa “liberdade” do leitor, o que os impede de viajar completamente na maionese e achar que existem influências católicas na Ilíada (ou de ficar tendo interpretações completamente pessoais de livros, músicas ou filmes). Cada obra tem um contexto sob o qual foi escrita, e isso deve ser considerado. Até porque muitas vezes existem intenções claras do autor em se mostrar algo, e isso não pode ser ignorado. O que não podemos fazer é colocar o autor como “senhor absoluto” do que está lá escrito.
Exemplo básico, utilizado pela minha professora: Roberto Drummond, autor de Hilda Furacão foi convidado a responder questões de vestibular sobre sua obra. Resultado: errou todas. E notou finalmente como o sentido da obra que havia escrito lhe escapava. Descobriu que o que “ele queria dizer” não importava mais, importava somente o que havia sido absorvido pelos leitores. Que o autor não é de forma alguma responsável pela leitura que farão da sua obra.
Eu gosto disso. Lembro das aulas de análise cinematográfica na faculdade e das pessoas reclamando que a professora enxergava coisas que o roteirista/diretor do filme não deveria ter pensado. E daí? Essas “coisas” estão lá na obra dele, sejam intencionalmente ou não. Cabe a nós interpretá-la.
Então, caso estejam pensando em escrever um livro ou um filme, lembrem-se disso. E sintam-se mais a vontade para interpretar livros, músicas e filmes alheios também. Esqueçam das malditas questoezinhas de vestibular. ![]()
Etiquetas: Literatura
17 Maio, 2008 em 8:59 pm
Isso nos leva às irritantes perguntas de vestibular: “o que o autor quis dizer?” Na verdade, não interessa o que o autor quis dizer, e sim o que o leitor captou daquilo.
I knew it!!!! Vou descobrir onde minha professora de português está morando e ir lá jogar na cara dela.